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- NA UTI, APRENDI UMA LIÇÃO
Zaga Mattos Mais um trimestre vencido. Isto tem especial significado para aqueles que têm mais passado do que futuro. Afinal, nessa corrida de barreiras, venci mais uma. Dito isso, vou falar da lição de vida. Recebida lá pelo início de um período como este, ocorrido, porém, há 12 anos. E que teve, como consequência — a principal, diga-se de passagem — a total mudança na minha vida. Geograficamente e mentalmente: não é sem razão o meu modo de vida atualmente. Desprendido das coisas materiais e procurando absorver ao máximo aquilo que o meu viver me proporciona. Seguindo, sobretudo, uma lição de Epicuro: melhor que aguardar grandes vantagens é saber viver com poucas necessidades. Feitas as apresentações, transcrevo aqui um texto sobre a lição de vida que aprendi num leito de UTI, no início de fevereiro de 2014. Um ensinamento que serve a todos: ESTIVE NA UTI. Hoje estou de volta ao Facebook. Foi uma parada inesperada e dolorida. Por muito pouco não foi uma parada definitiva. Vamos aos fatos: fiz uma angiotomografia do tórax e deu o que não desejava — tromboembolismo pulmonar. Já ouvira muitas histórias sobre o problema, sua gravidade e o elevado risco. Corri para o Google para a primeira consulta e o susto foi maior: alto índice de mortalidade. Pensei: "Vou dormir e amanhã cedo resolvo isso". Mas a razão funcionou dessa vez. Saí de casa às 00h30 de domingo e fui para o pronto-atendimento de um hospital. Foi mostrar o laudo e falar de minha falta de ar para ser encaminhado diretamente para a UTI. Na maca, passei por vários boxes e a orientação era: “vai para o 12”. Quando vi o box, fiquei satisfeito... Mais amplo, perto do local onde ficavam os enfermeiros. Senti-me prestigiado com a indicação do “12”. “Quer fazer xixi antes de deitar?” Como resposta, já ia me dirigir ao banheiro quando veio a ordem: vai na cadeira para não ter nenhum risco! Vi aí que a coisa era realmente grave. Durante três dias, muitas injeções, uma batelada de comprimidos e oxigênio. Só mesmo quem já passou por uma UTI sabe o que significa passar uma noite naquele agito. Médicos e enfermeiros para lá e para cá, conversando como se estivessem num happy hour. Parece mesmo ser proposital o volume da conversa: manter os pacientes despertos e, assim, mais fácil o controle da situação (dedução de um leigo, naturalmente!). Mas tudo isso é nada perto dos gemidos e muito mais de alguns. De hora em hora olhava para o grande relógio na parede e, a intervalos regulares, injeção de anticoagulante, a faixa apertando o braço para medir a pressão arterial, coleta de sangue, etc. Na noite de terça para quarta, surge um enfermeiro dizendo que iriam me mudar de box. Estranhei e argumentei que sairia no dia seguinte. Indaguei sobre a possibilidade de passar aquela noite ali. Veio a explicação que me fez afundar no colchão: o senhor já está melhor e sob controle. Está chegando um paciente em coma e estado muito grave. Entendi! O 12 me foi dado porque meu estado era o mais grave de todo o grupo. Naquele box estava todo o aparato para ressuscitação... O desfibrilador cardíaco, outros aparelhos pesados para emergência e, sobretudo, a vigilância atenta e próxima dos enfermeiros, de olho nos meus movimentos e no monitor sobre minha cabeceira. Fui satisfeito para o novo box. Lá longe de tudo isso... Senti-me abandonado, mas feliz... Daí comecei a fazer uma relação com a situação e a vida. É exatamente quando ocupamos lugares de destaque, assim tipo Box 12, que estamos mais sujeitos aos percalços; às investidas provocadas pela inveja; às armações que nos são antepostas. Já na planície, misturados à multidão, a vida corre sem sobressaltos. Basta-nos apenas a força natural para enfrentar as barreiras. Nada de artifícios ou esquemas para desfibrilar o que surge. Felizmente, depois de uma passagem por mais dois dias, sob observação num quarto, tive alta. Saí de uma experiência com mais um aprendizado. E, ao dizer a uma pessoa amiga: “que fase!”, ela simplesmente respondeu: “ uma fase boa. Você está voltando para casa .” Caso deseje comentar, coloque, por gentileza, seu nome e e-mail para contato.
- Por falar de Academia...
IMPERDÍVEL! Nesses dias em que a Academia Brasileira de Letras volta à pauta dos noticiários, recomendo aos amigos a leitura do polêmico discurso do curitibano Emilio de Meneses, para sua posse em 1918. Para quem não sabe, o poeta Emílio de Meneses foi eleito para a ABL em 1914, mas seu discurso de posse foi censurado pela Casa. Ele se recusou a fazer as emendas e, por isso, jamais tomou posse de sua cadeira, falecendo em 1918. O discurso é a prova máxima da sua irreverência!
- UM GESTO INESQUECÍVEL
Não há dúvida, a preguiça é a mãe de todos os vícios (e apesar de todos reconhecerem essa condição insistem em não a homenagear no Dia das Mães). Voltemos a ela. Então, por preguiça ou probleminhas de menor importância, tenho saído pouco para longas caminhadas. Até mesmo a ida até ali ou um pouco mais longe, fico na enrolação e acabo resolvendo por aqui mesmo. Hoje, porém, levantei cedo e fui cumprir um compromisso: a reunião semanal com um grupo de pessoas que têm dado sua contribuição à cultura itajaiense. Aceitei o convite para o café da manhã nas quintas-feiras. Se poderia haver sacrifício, pensei, faço a sublimação à noite nos come-e-bebes da minha confraria. Mas, que nada: momentos agradáveis, já no início da jornada, de tertúlias e bate-papos, sem o compromisso de querer salvar o mundo. Nesse sair de casa levo comigo o texto de abertura de minha página do Facebook: Crônicas Zaga Mattos. Está lá: Alegrias ou tristezas. Tudo está por aí ao derredor. Basta ter olhos e ouvidos atentos e o coração aberto. Assim é o cotidiano. A paisagem do dia a dia. Com esse espírito observador fico atento aos sons, imagens, situações. Sempre há lições para se tirar. Hoje, por exemplo, um freguês do clássico “me dá um dinheiro aí” irritou-se porque lhe respondi: hoje não tenho. Ele, freguês de carteirinha de meu bom humor, mais do que por generosidade, reclamou. Achei melhor seguir em frente e, de si para si, exclamei: então tá! Mais à frente, diante de um trailer, famoso pelos seus pastéis, dois cachorros de pelagens lustrosas, aproveitando o calor do sol. Lembrei-me, no instante, de uma frase muito ouvida, na minha adolescência. Bastava um “acima do peso” entrar, no bem frequentado bar, para alguém o provocar: por onde anda? Pelo visto o grude é bom... tá mais gordo do que cachorro de açougueiro! Continuei o percurso e, logo adiante, notei que o cadarço de meu tênis estava desamarrado. Procurei um encosto, um apoio, uma escada... A idade inicia seu avanço pelo percurso mais inteligente, para se fazer notar: a coluna! Tudo fica mais difícil. Principalmente àqueles que nunca foram de se curvar facilmente, fosse qual fosse a circunstância: bastava ter três cartas do mesmo naipe para encarar a parada e tentar o flush... Olhava o cadarço desafiador, perdi o equilíbrio em duas ou três vezes. Os esforços não foram, todavia, infrutíferos. Logo adiante, na mesma calçada, um casal aproveitando o belo dia de sol, vinha, em sentido contrário. Quando me encostei num muro para tentar mais uma vez “brigar” com o cadarço, ouvi a voz feminina: espere aí. Vou lhe ajudar! Antes mesmo de me refazer do espanto causado pela inesperada ajuda, a senhora, com seu traje esportivo, ajoelhou-se diante de mim e deu sólidos laços, amarrando os tênis. A primeira imagem que me acorreu foi a do lava-pés, expressão maior da humildade. Desconcertado, só me lembrei de dizer “muito obrigado”. Hoje, refeito da surpresa, e com a lembrança daquele inesquecível gesto, levo comigo essa lição, a qual sempre me recorro, principalmente quando a vontade é de dizer “não me amole”. =Imagem Gerada por AI-
- Sai, mau olhado!
Dado que são tantos os segredos desta vida, precavenho-me, como posso, para afastar as malignidades. Tal como os barqueiros do São Francisco, sempre à espera de um porto seguro. Afinal, o mar não está para peixe!
- NÃO É DE HOJE...
ZAGA MATTOS E NÃO É DE HOJE... Zaga Mattos Estava uma calmaria. Já íamos nos acostumando com as narrativas. O “deixa pra lá” estava se tornando palavras de ordem para não esquentar a cabeça. Uma espécie de convivência pacífica parecia estar se instalando nos grupos. Até que veio o “mas”. Aliás, mais que o “mas”... foi a “Masgnistique” ou algo que o valha. Foi difícil soletrar; mas de tanto bombardeio o “palavrão” ingressou na conversa do dia a dia. Por certo, logo, logo fará parte do VOLP. Não se preocupe! Explico: é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Editado e publicado pela Academia Brasileira de Letras (ABL).Tem caráter normativo para o português do Brasil. E, desse modo, Magnitsky (já familiarizado) caiu no gosto popular e está, inclusive, no bate-papo na espera da fila da manicure, vizinha de casa. Tirou do cardápio até a assanhada da Bebete, a garçonete da churrascaria do outro lado da rua. A menina se encantou com um freguês que tem âncora tatuada no braço e se diz marinheiro. As invejosas já começaram a falar que logo, logo, ela vai ficar a ver navios. Houve até uma língua de trapo que, com a mão no queixo, segredou: dizem que já está buchuda! Socorro-me das palavras do Benjor para me despedir da Bebete, “Vambora...”. Retomo o ponto de partida. Para analisar, como se estivesse a preparar um Miojo, esse ufanismo que está por aí. Há mais de 70 anos vejo o meu povo seguindo o American Way of Life. Lembro-me de quando tomei pela primeira vez a Coca Cola. Na pequena cidade do interior do Paraná, a garotada deixava os pequenos bares de fim de rua para beber a “novidade”, antes de ir à matinê para ver o Roy Roger e seu cavalo Trigger. E não me esqueço do primeiro chiclete de bola, que comprei numa ida à Curitiba, com meus pais. Na embalagem, desenho estampado, no verso, ensinando como assoprar aquela goma e fazer a tão sonhada bola. Já na adolescência, a garotada cantava Oh, Carol, como se estivesse na frente da moça da sorveteria e fizesse o seu pedido: "quero esse... quero de limão.". Eu, por exemplo, fico feliz hoje por não ter ido além do “rauduiudu”. Preferi curtir a Bossa Nova. E assim fui tocando meu barquinho, numa nota só. Sem “papagaiar”, aprendi o português. E a cereja desse bolo foi, sem dúvida, a calça Lee. Enquanto vestiam a Faroeste, da Alpargata, os adolescentes sonhavam com aquelas calças da juventude dos filmes americanos. Em 1965, fui ao Rio de Janeiro, e meu propósito maior era encontrar a Lee. E se ela era americana, fui direto na Sear’s. Que nada! A simpática balconista assoprou a palavra mágica: “Talvez você encontre no Mercadinho Azul, em Copacabana”. Tiro e queda! Sucesso total! E o Quarto Centenário do Rio ficou gravado na minha lembrança. E foi do Mercadinho Azul que me lembrei quando li uma reportagem em que Carlinhos Lyra observava que sua primeira americana ele encontrou lá. Depois é que veio a Kate para sua vida. Pois é... e a rapaziada estranha hoje. Então, tá! "Qual foi a sua 'calça Lee' ou a sua primeira 'Coca-Cola' na vida?" O Zaga Mattos nos fez viajar no tempo! Qual dessas referências — do chiclete de bola ao 'raiudú' — despertou mais a sua memória afetiva ? Compartilhe nos comentários a primeira grande novidade que te fez sentir conectado com o 'novo' ou com o mundo lá fora!
- Tratado a Panetone
Crônica de fim de ano — Zaga Mattos Eu só estava bombeando os corredores dos supermercados, correndo os olhos para ver se eles chegavam no estilo da invasão dos hunos. Finalmente, chegaram! Mas, se aqueles eram ávidos por ouro, o sucesso desses novos invasores está na avidez gulosa dos “invadidos”, que se preparam para os excessos alimentares das festas de fim de ano. Enfim, o panetone chegou... Enquanto os hunos avançavam pelas estepes com suas cavalarias, os novos invasores preferem as gôndolas. Não aquelas que navegam pelos canais de Veneza, mas suas homônimas que ocupam os supermercados. Mas não fica por aí a similitude das invasões. Se os hunos deram trabalho aos pesquisadores que polemizam sobre quais grupos étnicos descendem dos guerreiros das estepes, a discussão agora circunda fornos e panelas. São os chefs de cuisine debatendo, entre uma pitada e outra de açúcar, a descaracterização do panetone. Falam por aí que a receita original pertencia ao italiano Toni, padeiro conhecido em Milão pelo seu saboroso pão.“Quando torni a casa, non dimenticare di portare il pane di Toni.”Pegou como chiclete no cabelo; orgulhosa, toda mamma dizia à saída da igreja:“Mio marito non ha dimenticato il pane Toni.” Pois então, a razão de todo esse bolodório (não, não tem nada a ver com bolo!) é para dizer qual é a minha época de comer panetone. Prefiro o período pós-festas de fim de ano. Embora tenha por ele o maior apreço, postergo o prazer em face do preço.Nessa onda de sazonalidade, só cedo nas festas juninas.Se deixar os estouros para após as homenagens a São João e São Pedro, vão pensar que sou o novo milionário da Mega-Sena. E você, é do time que compra o panetone logo na primeira gôndola, ou adota a tática do autor e espera a liquidação pós-festas? Conte a sua estratégia nos comentários!
- VIAGEM ÍNTIMA
Zaga Mattos Pois é... eu nem imaginava; mas cheguei cá! Logo eu, seguidor daquela frase de incentivo para ter companhia num final de noite: deixa disso, a noite ainda é uma criança. Não me entreguei ao chinelo, tampouco às novelas. Vez ou outra, uma série curta. Mas, decididamente, já não sou mais aquele do “chova ou faça sol, tô lá!” Há pouco, depois de recolher a fornada de pão que fiz, liguei para minha filha mais velha, comunicando que o pão já estava pronto e que viesse buscar o seu. Entrega feita, atirei-me à ociosidade. Àquela do tipo “com dignidade”. Desfeito do traje de recepção, calcei as sandálias da humildade e dei-me a pensar: sexta-feira; serviços domésticos concluídos, pão feito... E agora, Zaga? Agora a disposição é outra. Estou mais para mim do que para os outros. Não que os afaste, mas este é o meu momento. Não percorro com o pensamento os momentos vividos. Não viajo, na imaginação, pelos caminhos percorridos. A música que me acompanha, em tom de surdina, não faz cócegas nos pés e muito menos aviva meu olhar. Apenas volto-me para o meu interior. Para dar fluidez ao pensamento, resolvi jogar umas pedras de gelo, feita com água de coco, sobre o uísque. Busquei um porta-copo e a marca estampada na peça foi como uma armadilha do destino, revolvendo minhas lembranças. Transportou-me para momentos memoráveis: dentre comemorações familiares, encontro com amigos e conversas inesquecíveis. Salvou a minha sexta-feira. De todos aqueles momentos restaram boas lembranças. Quando olhamos pelo retrovisor e não vemos imagens para serem esquecidas é porque a viagem tem sido boa. Merece a placa, à beira da estrada: Boa Viagem! Outubro 2025
- QUEM VEM LÁ? O QUAQUÁ! - III
Continuando as aventuras de Nonô e sua turma... Já apresentei a vocês o Nonô e o Quequé. Para situações cerimoniosas ou cheias de mesuras, são conhecidos como Claudionor e Albuquerque. A distância, com nomes pomposos, a dupla não dá margem a especulações sobre o após expediente da repartição. Um parêntese: taí palavra que caiu de moda. Ninguém mais fala “repartição”. Respeitemos, todavia, a denominação. Afinal, é o xodó de ambos. É um tal de repartição pra cá, repartição pra lá, que, aos ouvidos dos menos avisados, soa como a divisão do butim ou rateio de propinas. Fecha o parêntese: os dois são inseparáveis e incorruptíveis. Mas sempre estão de olho comprido nas colegas da seção. Assédio é palavra suprimida dos seus dicionários. Alegam que não há pecado em olhar com os olhos e lamber com a testa. Que mal tem elogiar o novo penteado? Ou dizer que a cor do batom dá aos lábios dela um jeitinho de Angeline Jolie? Assim, vão levando as melancias com a certeza de que elas se arrumarão no andar da carruagem. Tudo dentro dos conformes, de acordo com as normas das cartilhas preparadas pela Dete e Lindaura, as patroas de Nonô e Quequé, respectivamente. O caldo só entorna quando termina o expediente e encontram o Bevilaqua. Aí ficam naquela do “desce mais uma” e “que tal um lambarizinho frito?”. A coisa se complica porque o mulato Bevilaqua tem carta de alforria e gargalhada sempre aberta. A tal ponto que é conhecido como Quaquá. Apelido que não tem vício de origem: sorriso largo, sempre junto com Quequé e o nome é Bevilaqua. Queriam o quê? Que o chamassem de Tião? Zé? Só poderia mesmo ser Quaquá... Não se podia dizer que fosse um pedaço de mau caminho, mas sabia todos os atalhos dos caminhos do mal. E, graças ao currículo, ia à frente mostrando o rumo das quebradas. Para se conhecer melhor o Bevilaqua, dou uma pista: em sua carteira não podem faltar documento de identidade e preservativo. Mas a razão fica para daqui a pouco, contrariando um pouco a filosofia de Nonô, “nada de salamaleques e delongas”. Portanto, “esteja pronto para o que vier e der...”.
- FORMANDO A RODA - II
Depois de dar um estalo de língua após sorver o martelinho de cachaça, sem fazer cara feia, Claudionor, o Nonô, se ajeitou na banqueta, esparramou os cotovelos sobre o tampo da longa mesa e ficou preenchendo os volantes da Mega-Sena. − Sabe que nem sei por que continuo apostando nessa enganação. Vocês conhecem alguém que já ganhou? Nonô já foi do jogo. Era do tipo compulsivo. Não tirava a bunda da cadeira de jeito nenhum. As más línguas contam que ele estava num pif-paf brabo no Lyra, lá em Floripa, no tempo em que o clube ficava num terreno à beira de um barranco na Felipe Schmidt. Foi para Florianópolis para conferir se a ilha tinha mesmo 42 praias. E acabou se atracando no jogo. Chuva forte lá fora, com raios e trovoadas. Na sala toda enfumaçada, a turma ferrada no pano. Lá pelas tantas, Nonô, já perdendo até as calças, eles ouviram um barulho. A lâmpada tremeu com o estrondo. Os parceiros levantaram e seguiram a voz de comando: − Vamos trotear a mula que o barranco tá desmoronando! Só o Nonô permaneceu sentado e, calmamente, argumentou: − Que nada! Isso é só reflexo do terremoto que deve estar tendo no Chile! Era daqueles que queriam ganhar até a mesa de jogo. Nunca con- seguiu. Ficava sempre na filada para ver se aquela era a carta sonhada. Agora ela vem! Hoje, a agenda de Nonô tem pequeno espaço para “inocentes atividades esportivas”. Restaram apenas a fezinha diária no Jogo do Bicho, as loterias da Caixa e o dominó. Mas neste não corria dinheiro: quem perdia, pagava a cerveja. Agora, era trocar ideias com Quequé, saber se o amigo sonhara com algum bicho à noite ou tivera dica de cocheira para alguma aposta. Como na vez em que estava num caxetão na casa do Capitão, e o Bicicleta apareceu com uma barbada. Confiou e ganhou. Capítulo II de Memórias de um Boêmio de Chinelos
- CANSADO DE FICAR DE BEM COM TODOS
O noticiário nos últimos dias tem sido irritante. Para dar uma relaxada mental, liguei para um velho conhecido — desses do tipo politicamente correto — e aticei o tigre com vara curta. Já comecei perguntando se tinha notícias do Gordinho. Pronto! Rodou a baiana com um discurso de assombrar os Vigilantes do Peso. Fiquei só no ram-ram. Mudei de assunto e falei de uma moreninha que andava arrastando a asa pro meu lado. Pra quê... Aproveitou a deixa e colocou na mesma panela a Dona Isabel, aquela do Abolicionismo, defendendo duas causas ao mesmo tempo — pra economizar adjetivos. A irritação foi tamanha que percebi que já podia voltar ao noticiário. Irritação por irritação, prefiro aquelas com as quais já estou acostumado há muito tempo. Zaga Mattos 24/6/2025









