NA UTI, APRENDI UMA LIÇÃO
- Zaga Mattos
- 1 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Zaga Mattos

Mais um trimestre vencido. Isto tem especial significado para aqueles que têm mais passado do que futuro. Afinal, nessa corrida de barreiras, venci mais uma.
Dito isso, vou falar da lição de vida. Recebida lá pelo início de um período como este, ocorrido, porém, há 12 anos. E que teve, como consequência — a principal, diga-se de passagem — a total mudança na minha vida. Geograficamente e mentalmente: não é sem razão o meu modo de vida atualmente. Desprendido das coisas materiais e procurando absorver ao máximo aquilo que o meu viver me proporciona. Seguindo, sobretudo, uma lição de Epicuro: melhor que aguardar grandes vantagens é saber viver com poucas necessidades.
Feitas as apresentações, transcrevo aqui um texto sobre a lição de vida que aprendi num leito de UTI, no início de fevereiro de 2014. Um ensinamento que serve a todos:
ESTIVE NA UTI.
Hoje estou de volta ao Facebook. Foi uma parada inesperada e dolorida. Por muito pouco não foi uma parada definitiva. Vamos aos fatos: fiz uma angiotomografia do tórax e deu o que não desejava — tromboembolismo pulmonar. Já ouvira muitas histórias sobre o problema, sua gravidade e o elevado risco. Corri para o Google para a primeira consulta e o susto foi maior: alto índice de mortalidade. Pensei: "Vou dormir e amanhã cedo resolvo isso". Mas a razão funcionou dessa vez. Saí de casa às 00h30 de domingo e fui para o pronto-atendimento de um hospital. Foi mostrar o laudo e falar de minha falta de ar para ser encaminhado diretamente para a UTI.
Na maca, passei por vários boxes e a orientação era: “vai para o 12”. Quando vi o box, fiquei satisfeito... Mais amplo, perto do local onde ficavam os enfermeiros. Senti-me prestigiado com a indicação do “12”. “Quer fazer xixi antes de deitar?” Como resposta, já ia me dirigir ao banheiro quando veio a ordem: vai na cadeira para não ter nenhum risco! Vi aí que a coisa era realmente grave. Durante três dias, muitas injeções, uma batelada de comprimidos e oxigênio.
Só mesmo quem já passou por uma UTI sabe o que significa passar uma noite naquele agito. Médicos e enfermeiros para lá e para cá, conversando como se estivessem num happy hour. Parece mesmo ser proposital o volume da conversa: manter os pacientes despertos e, assim, mais fácil o controle da situação (dedução de um leigo, naturalmente!). Mas tudo isso é nada perto dos gemidos e muito mais de alguns. De hora em hora olhava para o grande relógio na parede e, a intervalos regulares, injeção de anticoagulante, a faixa apertando o braço para medir a pressão arterial, coleta de sangue, etc.
Na noite de terça para quarta, surge um enfermeiro dizendo que iriam me mudar de box. Estranhei e argumentei que sairia no dia seguinte. Indaguei sobre a possibilidade de passar aquela noite ali. Veio a explicação que me fez afundar no colchão: o senhor já está melhor e sob controle. Está chegando um paciente em coma e estado muito grave. Entendi! O 12 me foi dado porque meu estado era o mais grave de todo o grupo. Naquele box estava todo o aparato para ressuscitação... O desfibrilador cardíaco, outros aparelhos pesados para emergência e, sobretudo, a vigilância atenta e próxima dos enfermeiros, de olho nos meus movimentos e no monitor sobre minha cabeceira.
Fui satisfeito para o novo box. Lá longe de tudo isso... Senti-me abandonado, mas feliz...
Daí comecei a fazer uma relação com a situação e a vida. É exatamente quando ocupamos lugares de destaque, assim tipo Box 12, que estamos mais sujeitos aos percalços; às investidas provocadas pela inveja; às armações que nos são antepostas. Já na planície, misturados à multidão, a vida corre sem sobressaltos. Basta-nos apenas a força natural para enfrentar as barreiras. Nada de artifícios ou esquemas para desfibrilar o que surge.
Felizmente, depois de uma passagem por mais dois dias, sob observação num quarto, tive alta. Saí de uma experiência com mais um aprendizado. E, ao dizer a uma pessoa amiga: “que fase!”, ela simplesmente respondeu: “uma fase boa. Você está voltando para casa.”
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Meu amigo. E de arrepiar e de repensar a vida. Grande abraço. Fique longe do 12.
Grande Zaga! Tens grandes memórias pra compartilhar conosco! Vida longa amigo!!!
Que Deus te dê muitos anos de vida e com muita saúde, amigo Zaguinha.
Quem banhou-se nas águas do Rio Jaguaricatú e dançou no ECO e OPERÁRIO. Terá vida longa.
Abraço do amigo Sengeano.
Grande Mestre. Muito bom.
Perfeito..sério mas aprazível..de ler, é claro!