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  • NÃO TIVE FILHOS...

    Estudei o bastante para passar no Vestibular de Letras na Faculdade de Filosofia da UFMG, em 1968.. Foi o último vestibular independente. No ano seguinte, começariam os vestibulares unificados nas universidades federais. A UFMG passaria a fazer os seus no Mineirão. Cheguei a tentar um desses, para Educação Física. Passei, mas não me matriculei. Nem sei por que fiz, meu tempo estava todo tomado, só se houvesse aulas de madrugada. Mas isso é uma outra história. Voltemos à vaca fria. Estávamos eu e o amigo Paulo Miranda sentados lado a lado numa sala da Faculdade de Filosofia da UFMG, na rua Carangola, em Belo Horizonte, no final de 1968. Distribuíram-se os "cadernos de provas", com a ordem de que cada capa estaria obrigatoriamente virada para baixo. Deveríamos aguardar a sirene que autorizaria a abertura dos cadernos, a partir daí seria excluído quem conversasse. Enquanto sirene não havia, a sottovoce, os candidatos circunstantes trocavam ideias e faziam revisões de ultíssima hora. Paulo e eu também conversávamos, alguma piadinha se contou, De repente, pus sentido no meu caderno de provas: a última página era de papel fino, transparente. Eu podia ler tudo, como Narciso via sua face nas águas do lago mitológico. Naquela página estava a questão mais valiosa: a dissertação, valia 50% da prova. Era para deslindar, de acordo com o enredo do romance de Machado de Assis, as frases finais de Memórias Póstumas de Brás Cubas: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria." Perguntei ao Paulo se tinha lido. Disse que não. Rapidinho, também a sottovoce, fiz um resumo de quinze segundos do enredo, meio à TikTok, pois tinha lido o romance e gostado muito. Em seguida, toca a sirene, agora era cada um por si. No fim das contas, ele ganhou nota maior do que a minha e escolheu Alemão. Meu objetivo era Inglês,minha classificação não deu. Contentei-me com a Língua Pátria.E não foi tão mal assim: reforcei meu português e aprofundei-me em fonética e fonologia. O Inglês aprendi uns anos depois, na mesma faculdade, porém no curso específico para professores desse idioma no Projeto Premem. Isso, também, já é outra história.

  • THE END

    Muito tempo antes de pensar sobre a finitude, palavra que a sabedoria popular disseca na frase “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe” eu já sabia que o fim encerra tudo. Como dizem os italianos: punto e basta. Foi uma descoberta feita lá pelos meus oito ou nove anos. Já tinha soletrado toda a cartilha “Caminho Suave” e sabendo que o Ivo viu a uva adorava ir ao cinema. Gritava o Aiô, Silver imitando o Zorro. Batia os pés no piso de largas tábuas de madeira para alertar o mocinho preste a cair na emboscada preparada pelo bandido. Ah, quantas vezes salvei o Gene Autry e o Roy Rogers de cairem nas garras daqueles malvados – na época não havia no meu dicionário a palavra marginal. No momento crucial do perigo a interrupção salvadora. Com o fim do episódio. Ficava no ar a ansiedade até o próximo capítulo. A grande lição viria na sequência da programação cinematográfica. Nas trapalhadas de Oscarito e Grande Otelo ou Ankito. Um ou outro sempre procurando jeito de escapar do mal-intencionado José Lewgoy ou ajudando Cyl Farney a conquistar Eliana ou Adelaide Chiozzo, encantadora com seu acordeon. E assim ia meu deslumbramento fosse no bang-bang ou nas chanchadas lançadoras de sucessos carnavalescos. Um ponto era certo: após os atropelos e fortes emoções a tela era tomada por grandes letras no famoso The End. Foi assim, portanto, com o fim que teve início meu contato com o inglês e aprendizagem sobre a finitude, seja na alegria ou na tristeza. Na vida, em tudo, uma coisa é certa: punto e basta. Por Zezinho

  • REFLEXO CONDICIONADO

    “Pena que é pecado” foi a maneira que encontrou para dizer como havia sido bom o primeiro encontro. Ela sorriu, satisfeita e vaidosa. Ficava no ar a possibilidade de novas incursões pelo lençol daquele motel. Ao fundo, o lamento de “Oração Caribe”, bolero que implora perdão aos que amam, aos que sofrem. Pensou: e se um dia na programação musical colocarem aquela da Ângela Maria, a do “avental todo sujo de ovo/ se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe/ começar tudo, tudo de novo!” Seria, sem dúvida, um festival de remorsos. Muitos voltariam, com olhos marejados, aos braços da patroa, a quem, incestuosamente, costumam chamar de “mãe”, como forma de carinho. Logo deixou para lá os “maus” pensamentos. Pensou que já era hora de voltar para o escritório. Tinha pela frente todo o expediente da tarde. Voltaria aos surrados livros “Diário”, “Contas a Pagar”... Tinha até a ponta do indicador mais fina de tanto passá-lo na língua e folhear as notas fiscais dos clientes do escritório de contabilidade. Os encontros furtivos à hora do almoço é que lhe davam forças para enfrentar o batente e agüentar a visão das prateleiras atopetadas de livros e papeladas. Nos braços dos amores ocasionais, esquecia-se de tudo. Até mesmo do vermelho na conta bancária. E olhe que era de levar na ponta do lápis as despesas. Escolhia o motel que franqueasse o almoço. E aí, então, já tinha na ponta da língua o pedido: traz uma cerveja e frango a passarinho. A dica lhe fora dada por um amigo: - não vá de peixe e nem de carne. Pode dar problema... O frango frito não tem erro. Já viu alguém ter disenteria por causa de frango? Uma coxinha, uma asa e uma talagada de cerveja. Chegava até a estalar a língua de satisfação. Estava como o diabo gosta: recostado no travesseiro, o prato sobre a barriga, os pés roçando a companheira e a espuma da cerveja molhando o bigode ralo. Sabia que depois do regalo gastronômico, viria nova sessão de prazer, verdadeiramente da carne. Esse era o roteiro: franguinho frito e sexo. Assim ia levando a vida. Beijos na patroa ao sair para o trabalho, deixar as crianças na escola, enfrentar o mau humor do Eustáquio no escritório, a fugidinha para o motel, as novelas das oito e, amanhã, começar de novo. Tudo ia bem até o dia em que percebeu que teria que mudar algo em sua vida. Foi quando, no dia das mães, levou a mulher, os filhos e a sogra para almoçar em Santa Felicidade. Bastou os garçons trazerem a comida à mesa, para a mulher sorrir satisfeita com o que vira e dizer ao pé do ouvido: ai, pai, como você tá... Vai me dar esse presente? Havia sido traído pela excitação ao ver coxinhas e asas de frango fritas...

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Zaga Mattos

Com um nome de 34 letras resolvi facilitar a comunicação e adotei, de vez, o Zaga Mattos. Jornalista, hoje, por ócio do ofício, escritor.

 

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